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| Um dos rios próximos a Véu da Lua. A cidade recebe este nome por sua intensa neblina. |
Véu da Lua, 1371 CV, Quarto Dia da Segunda Dezena do Alto Verão.
Na noite do primeiro dia do Alto Verão, dedilhava em meu dulcimer a balada de "Rothgar, O Insesato", arrecadando algumas peças de prata do meu público na Taverna Bico de Ouro, em Cormyr. Quando me aproximava do último crescendo da melodia, avistei Willis Laka, um amigo entre os Dragões Púrpuras, adentrar o estabelecimento. Pelo seu olhar e breve aceno já sabia que tinha notícias para mim.
Quando meus companheiros e eu sentamos com Willis, fomos informados que havia uma praga se espalhando pelo sul do reino e aventureiros eram requisitados, já que os Dragões e muitos outros ainda se ocupavam com o que restava da guerra. Fiquei apreensivo, pois foi no sul do reino onde passei a primeira metade da minha vida, e senti um calafrio percorrer a espinha quando disse o nome: Véu da Lua.
Véu da Lua, a cidade onde cresci, estava sendo assolada pela praga, assim como as vilas próximas que respondem a ela. Não posso dizer que mantenho laços fortes com a cidade e seus habitantes, mas foram nas ruas e vielas de Véu da Lua onde caíram minhas primeiras lágrimas e minhas primeiras gotas de sangue - e retornar para lá despertava sentimentos difíceis de decifrar.
Lorde Greenwood, responsável pela cidade, mandou espalhar pelo reino que precisava de toda ajuda disponível de bravos aventureiros dispostos a arriscar as próprias vidas para salvar incontáveis outras - e, no processo, ganhar algumas dezenas de peças douradas. Willis pouco sabia sobre a praga e deveríamos buscar mais informações com o próprio Lorde. Antes, deveríamos nos encontrar com um clérigo anão de um templo local, pois a igreja insistiu que ele nos acompanhasse. Será mesmo de grande utilidade poder contar com um clérigo habilidoso - especialmente considerando que lidaremos com uma peste.
Pela manhã, já prontos para a viagem, conhecemos Thórin, o clérigo que nos acompanhará. Um anão corpulento, de poucas palavras e muitos resmungos. Partimos com sorrisos no rosto e a alma aberta para a estrada e o novo. Bem, não tenho certeza se Grom, Thórin e Keith estavam sorrindo, mas eu certamente estava - e juro ter percebido um sorriso no gnomo Glim.
Após muitos dias de viagem, com dias quentes e noites chuvosas, fizemos a última parada antes de Véu da Lua em Ritápolis, uma pequena vila à beira da estrada. Lá, percebemos os moradores taciturnos, pouco preocupados com nossa presença, com a aparência de trabalhadores rurais. Fomos bem recebidos pela carismática Stella, atual dona da Estalagem da família. Ruiva e corpulenta, serviu-nos uma boa cerveja e um bode bem preparado. Animado com a aventura cada vez mais próxima, não resisti e comecei a cantar e tocar. A platéia pareceu genuinamente surpresa e muitíssimo satisfeita - e muitos foram chegando para ver o espetáculo. Era possível ver nas vozes, no sorriso aberto e no olhar marejado que estas pessoas estavam precisando mesmo de uma canção. Não há recompensa melhor para um bardo do que uma platéia genuinamente absorvida e transformada por sua música.
Conversamos brevemente com alguns moradores e com Stella. A praga certamente já chegou naquela cidade, mas parece estar pior ao sul. Não transpareceram nenhum incômodo com minha descendência élfica, mas ficou claro que não estavam acostumados com estrangeiros. Grom foi o alvo dos olhares e comentários mais desconfiados. Keith alertou-me para escolher bem minhas palavras, pois pareciam bastante superticiosos e temerosos, uma combinação perigosa. Pelo que entendemos, recentemente queimaram uma senhora, suspeitando que fosse uma bruxa parcialmente responsável pela peste. Pernoitamos e prosseguimos na manhã seguinte.
Os primeiros rostos que pudemos ver em Véu da Lua já me eram familiares. Dois guardas, que na minha época já trabalhavam para a milícia da cidade, protegiam a entrada da cidade. Tentamos conseguir alguma informação deles, mas fomos mandados direto para o Lorde Greenwood.
Enquanto andava pela cidade retornava a mim a memória de cada atalho desta cidade. Os becos, as portas ocultas, os caminhos quase escondidos que cruzam plantações. Em muitos destes caminhos, encontramos a morte. Corpos, vários corpos. Às vezes jogados, às vezes empilhados, com o forte cheiro de putrefação e uma aparência odiosa. Veias azuis onde era possível ver a pele e bocas negras. Podíamos ouvir o som baixo de pessoas chorando perto das casas, o semblante triste e amargurado de cada cidadão. A cidade inteira parece um velório.
Chegamos finalmente à mansão dos Greenwood. Após nos identificarmos, passamos pelo portão escoltados por guardas até a porta da residência. Na porta, uma espécie de valete ou mordomo, formal e pouco simpático, nos acompanhou para dentro da mansão. Ficamos esperando na sala, com fome, por quase uma hora. Quando fomos chamados à sala de reuniões do Lorde Greenwood pudemos perceber que ele ainda tem uma guarda pessoal robusta e salões imensos. O Lorde se sentava no final da sala, como em um trono, e tudo exalava orgulho e formalidade. O que foi rompido de imediato pelo próprio Lorde: se levantou, cumprimento um a um, com um aperto de mãos, e nos convidou para jantar.
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| Lorde Thuomas Greenwood |
Após devorarmos um espetacular banquete como uma horda de gnolls famintos, retornamos à sala de reuniões. Lá, Lorde Greenwood mandou chamar mais duas pessoas: mestre Duvel e Ísis. Mestre Duvel é um arcano e erudito muito conhecido em Véu da Lua, mas nunca o havia visto pessoalmente. Educou algumas gerações dos Greenwood, mas sua reclusão e, principalmente, o fato de ser um gnomo, sempre fez com que seu nome fosse falado com reverência e desconfiança nas ruas. Já Ísis, imagino, deve ser a filha do Lorde. Sei que este é o nome de sua única filha, que era bem pequena quando parti desta cidade - e nunca a vi pessoalmente.
Estava certo. Quando Ísis entrou na sala era possível ver os traços do pai nela. Mais do que isso, o modo afetuoso e travesso como ela o olhava e dirigia a palavra escancarava a situação.
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| Isis Greenwood |
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| Mestre Duvel |
Finalmente tivemos a oportunidade de saber mais alguns detalhes. Lorde Greenwood nos informou que a peste começou há algumas dezenas ou poucos meses, mas com avanço bem mais acelerado no último mês. Aparentemente, veio de algum lugar no sul, afetando de modo mais ou menos uniforme um certo número de pequenas vilas. Hoje, alguns locais já foram praticamente dizimados pela peste e ela chegou com força a Véu da Lua. Clérigos locais não têm sido bem sucedidos em curar ou conter a peste, o que reforça a tese de que seja algo mágico. Lorde Greenwood parecia bastante afetado pelo que acontecia, falando apaixonadamente, com certa raiva e emoção, tornando públicas suas suspeitas de que um demônio estivesse envolvido. Será Lorde Greenwood supersticioso como os demais? Esperamos que não.
Recentemente, começaram a aparecer rumores de mortos-vivos, o que não é uma fantasia incomum das pessoas quando muitos começam a morrer. No entanto, um grupo de pessoas diz ter encontrado os mortos-vivos em uma floresta próxima ao Pântano Cerrado, e pareciam vir daquela direção. Dizem que ao menos duas pessoas foram mortas nas florestas por eles. O Lorde, então enviou uma pequena patrulha para investigar, mas ainda não retornaram. Ele teme pela vida dos soldados. Nossa missão será a de investigar os rumores sobre os mortos-vivos e, se verdadeiros, descobrir sua origem e exterminá-los. E, claro, o principal: supondo que a origem dos mortos-vivos e da praga seja a mesma (ou tenham algo em comum), colocar fim à praga iria ser imensamente recompensado.
Antes de partirmos, ele acrescentou que deveríamos levar Ísis conosco. Falou com um respeito relutante sobre suas grandes habilidades como arqueira e combatente. Encerrou a reunião e colocou Mestre Duvel à disposição de Glim para tirar dúvidas sobre a parte arcana da nossa empreitada, enquanto gentilmente intimou Keith e eu para uma conversa particular. Thórin e Grom ficaram com Ísis.
No cômodo isolado, Keith adiantou as intenções do Lorde antes mesmo que ele dissesse as primeiras palavras. O Lorde confirmou: deveríamos dar prioridade a manter Ísis salva e retornar com ela. Veio novamente à tona sua paixão, beirando a ameaça quando enfatizou que mante-la inteira e imaculada (sexualmente, pelo que pude entender) valia mais do que nossas vidas. Deveríamos fazer ela acreditar que está participando, mas apenas o suficiente para ela se assustar ao ver no que está se metendo e, após concluída nossa missão, traze-la de volta. Alguém deveria estar sempre de olho nela. Keith questionou o porquê de permitir que ela vá a uma missão que pode ser bastante perigosa e Lorde Greenwood disse que concordou a contragosto e com muito pesar, mas que foi aconselhado nesse sentido e não vê solução melhor para lidar com o ímpeto da garota e com a inquietação da população para com mulheres solteiras - especialmente jovens atraentes. Será que até mesmo a filha do Lorde corria risco de ser queimada como bruxa?
Sem muito mais a ser dito, negociamos nossa recompensa - que, obviamente, seria pouco elegante revelar neste diário.
Partimos para conversar com os clérigos que têm lidado com a peste. Como os Greenwoods e os demais moradores da mansão vivem quase isolados, pouco sabem dos detalhes da doença e os clérigos podem ter informações valiosas.





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